Bernardino Dias

Sobral Fernando

Há dias que nos marcam porque, por maiores e mais intensos que sejam os desafios, o resultado compensa. E foi num dia assim que conhecemos o Bernardino Dias. Encontrámo-nos na Associação de Sobral Fernando já um pouco atrasados para começar a caminhada. Depois de muitas conversas com a Ana Louro - presidente da Associação para o Desenvolvimento do Sobral Fernando - e com outros habitantes da aldeia, tornou-se evidente que tínhamos de conhecer a Lapa. E como uma ideia leva a outra, surgiu a vontade de criar um trilho que começasse no centro da aldeia, passasse pela obra da Menina dos Medos, pelas Portas de Almourão, pelo miradouro e fosse até poço da Lapa para as pessoas se refrescarem no cimo da montanha. 

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O trilho não é novo, os mais antigos calcorrearam-no vezes sem conta, com sacos de 50kg de azeitona às costas, mas é isso que o torna tão especial. Isso e as vistas! Em cada curva uma nova perspetiva sobre o rio Ocreza, a aldeia e as Portas de Almourão. Requalificar um caminho ancestral é redescobrir o cruzamento de histórias que o marcaram. É compreender que, não há muitos anos, toda a encosta era um enorme olival, separado por pequenos muros de xisto, como ainda o é no terreno do senhor João Dias. É compreender que a história das pessoas se reflete nas suas paisagens, quase tanto quanto a paisagem se reflete nas suas vidas. 

É neste ponto que entra a história deliciosa que o Bernardino Dias nos contou depois de percorrermos o trilho da Menina dos Medos. Era o dia da festa da aldeia, o jovem Bernardino queria alimentar o gado antes de “ir para a paródia” e foi até ao sítio mais próximo, o campo do Ti Zé. O seu vizinho estava de luto pelo irmão e depois da procissão voltou ao campo onde encontrou o Bernardino e os seus animais. Pouco satisfeito disse-lhe que tinha andado a guardar aquele pasto para o seu gado! Antes de ir, Bernardino ainda perguntou se o Ti Zé lhe dava uma das suas raras laranjas. Então é que o mais velho ficou arreliado “As ovelhas comeram-me a pastagem toda e agora dava-te uma laranja? Não dou não senhor!”. O Bernardino foi para longe, “mais longe que da aldeia ao rio!”. Lá longe, em cima de um muro, o pequeno Bernardino atira sem ver para onde uma “Fundega”, que é uma espécie de fisga. Eis que ouve lá muito ao fundo, a voz do Ti Zé a chamá-lo. Cheio de medo, adivinhando que a fundega tinha aterrado em cheio na laranjeira do Ti Zé, o Bernardino tenta esquivar-se, mas ao passar mais perto o vizinho chama-o “Oh Bernardino! Anda cá! Leva as laranjas que quiseres, que Deus castigou-me!”. 

Bernardino Dias foi contente buscar as laranjas caídas da árvore e só anos mais tarde contou ao Ti Zé que tinha sido obra sua. Hoje em dia Bernardino tem um laranjal invejável, com uma vista deslumbrante e é um dos pontos de destaque do novo trilho da Menina dos Medos. E se esta história abre o apetite de visitar este “cantinho do céu”, pois que fica bem mais sumarenta quando ouvida pela voz do próprio Bernardino. Este é um trilho imperdível no “roteiro” do desconfinamento que se avizinha. 

Bernardino Dias, obrigado por nos deixar partilhar a sua história. 

Fotografia: Ana Louro 

Helena Fernandes

Sobral Fernando

Estávamos a caminho das Portas de Almourão quando passámos pela primeira vez em Sobral Fernando. Era cedo, mas o dia já ia longo naquela primeira visita ao concelho de Proença-a-Nova. Logo nesse primeiro encontro com a aldeia de Sobral Fernando chamou-nos à atenção o forno comunitário onde os bancos de cimento, brancos, que ladeavam o forno, estavam decorados com umas tiras ondulantes pintadas de amarelo. Era diferente de tudo o que tínhamos visto até ali. Era um sinal de cuidado, de mudança e, sobretudo, de vida. 

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Pois que a autora e impulsionadora dessas decorações só conhecemos mais tarde. Helena Fernandes, natural de Sobral Fernando, dotada de uma força e irreverência contagiantes, que só se assemelha à força do rio Ocreza a rasgar a sua passagem no sopé da aldeia/na margem sul da aldeia. 

Helena nasceu e viveu até aos 10 anos ali, naquela aldeia ladeada por dois rios, junto às Portas de Almourão, um acontecimento geológico semelhante às Portas de Rodão e com vista para a Foz do Cobrão, a aldeia na margem norte do rio, que já pertence ao concelho de Vila-Velha de Ródão. O rio é um lugar-comum nas histórias dos habitantes de Sobral Fernando. Quando Helena nos falou das brincadeiras na “rebera” transportou-nos com o seu olhar vibrante até um tempo em que as crianças iam sozinhas para o rio nadar e apanhar peixes. “Os mais velhos diziam-nos: Vocês, para nadar mais depressa têm que engolir peixes vivos!, nós fazíamos uma concha com as mãos e engolíamos aqueles peixes pequeninos do rio num gole.” 

 Era vontade da família contrariar o legado da dureza da vida no campo e por isso com 10 anos, a menina, foi viver para a casa dos tios em Lisboa, para estudar e se tornar professora. Helena não nos conta os seus “trambolhões” em pormenor, mas é fácil imaginar o encontro violento do seu espírito crepitante com os desafios da capital. Formou-se na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e foi professora de educação visual. Artista, mãe de três filhas e orgulhosamente independente, Helena regressa a Sobral Fernando em 2009, consciente que a forma como se fez o caminho é que permite saborear a viagem. 

No Sobral gere dois alojamentos locais, transforma o antigo palheiro do “ti” Diamantino na sua casa e atelier, onde cria tapeçarias inspiradas na Beira Baixa, pinta a óleo, acrílicos e quadros a carvão, molda peças de cerâmica. Apaixonada por este “Cantinho do Céu” as suas ações transpuseram as paredes da casa e desceram para a rua, para os pequenos largos e para o ponto de encontro por excelência: o forno da aldeia. Como se costuma dizer, uma coisa leva à outra, e a vontade de Helena contagiou toda a aldeia. O valor da paisagem reflete as vontades da sua gente e é, por isso, fascinante perceber que a decisão de uma pessoa para melhorar o seu cantinho, levou outras a olhar à sua volta e a unirem-se para cuidar em conjunto da sua aldeia. Talvez este seja o verdadeiro sentido de comunidade, algo que se sente de forma tão distinta aqui no Sobral e que é tão difícil de explicar por palavras. 

Edite Pisco

Cunqueiros

Em Cunqueiros, a ribeira serpenteia por entre o antigo núcleo de casas em xisto e no Verão, junto com os limoeiros, o simples vislumbre sabe a refresco para a alma. Os mais novos contam as brincadeiras nos poços, os mais velhos recordam os troncos que depois de cortados desciam no rio até à serração e outros lembram-se da ponte velha, em xisto e da levada onde se lavava a roupa. Nos dias de hoje, principalmente para os mais citadinos, custa imaginar a sensação das mãos na água fria, a textura dos tecidos ensopados contra os dedos, o corpo vergado, a pele engelhada… é uma imagem que ficou datada nos filmes a preto e branco. 

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Numa quinta-feira de Dezembro passado, encontrámos a Edite a lavar panais da apanha da azeitona, no rio. O sol tímido e a azáfama ajudavam a combater o frio do Inverno da beira baixa. A Edite contou-nos que a água da ribeira era usada para quase tudo na vida da aldeia. Para além de lavarem lá a roupa, também era no rio que se lavavam, davam de beber aos animais, usavam a água para regar a terra. Um ato natural como a naturalidade da ribeira a correr entre as quelhas. A proximidade do rio à aldeia afirma-se nestes gestos enraizados, na relação quase umbilical da participação do rio nas rotinas diárias. 

A “rebera é a melhor coisa que a gente pode ter”. A Edite confessou que podia viver na zona alta da aldeia, até tinha lá uma casa, mas que nunca se deu bem, prefere viver no vale, porque está mais próxima da ribeira de Cunqueiros. “A rebera faz parte da minha vida! Ás vezes ainda vou lá lavar a roupa só para aliviar a cabeça. É como um calmante.” 

Talvez fosse possível fazer todas as tarefas sem precisar de descer literalmente até ao rio, mas, é como diz a Edite, o rio faz parte da sua vida e mantendo este contacto, vai alimentando uma ligação ancestral com este recurso natural tão estimado na beira baixa. Os motivos podem ter mudado com o tempo, mas o valor dos recursos hídricos mantem-se incalculável. Nos Cunqueiros é certo que esse reconhecimento continuará a ser celebrado sempre que a Edite descer até ao rio para lavar os seus panais. 

Fotografia: Catarina Pisco 

Eduardo Brejo

Cunqueiros

Cunqueiros conserva o encanto de um segredo por contar. Ao percorrer o labirinto de quelhas e pequenas pontes que cruzam a ribeira, é a massa xistosa das paredes e muros, que ladeia esses caminhos, que nos transporta para outro tempo. Há como que uma sensação de ancestralidade confirmada nas pedras gravadas com datas e símbolos, junto às portas das casas. Tantas histórias por contar… 

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As casas contam muitos anos e talvez fosse de esperar que estivessem todas abandonadas e em ruína, mas, se fosse assim, não estaríamos a falar de Cunqueiros. A cada visita comprovamos que os conceitos de resiliência e resistência podiam ter nascido ali. Eduardo Brejo é a prova disso. A sua história não só o demonstra, como também reflete a história de uma região, marcada pela exploração do Pinhal. 

Eduardo nasceu ali, na aldeia, em 1957. Já não é do tempo de ver a serração de Cunqueiros a funcionar, mas recorda-se dos seus tempos de infância em que “toda a gente resinava pinheiros”. Ele próprio, aos 12 anos, começou a ajudar o pai a colher resina. Era trabalho para o verão inteiro. Como diz Eduardo “a resina dava muito trabalho, mas dava dinheiro… Era uma renda.”. Chegava-se a alugar pinheiros aos que estavam emigrados. O negócio corria bem, não só na zona de Proença-a-Nova como nos concelhos vizinhos. O Pinhal gerava riqueza e prosperava. A exploração da resina exigia que as árvores tivessem mais de 20cm de diâmetro e para isso era preciso limpar e mondar a floresta. Eduardo recorda-se que havia fiscais estatais que garantiam a qualidade da exploração no terreno. 

Nos anos 80 as coisas voltaram a mudar. A resina deixou de ser uma renda estável e a venda de pinheiros passou a ser muito mais rentável. Em 1982 começou a trabalhar em Proença-a-Nova na Sotima, uma fábrica de produção de aglomerados de madeira responsável por empregar muitas pessoas daquela região e dinamizar fortemente a economia local. O pinhal robusto, moldado pela exploração da resina, rapidamente transformado num pinhal extensivo era, ainda, motor de riqueza para a região porque para produzir aglomerado os pinheiros não precisam de ser grandes, uma vez que se usam aparas e desperdícios de madeira. 

A Sotima fechou em 2002, Eduardo emigrou para França onde trabalhou num viveiro de árvores. Regressou a Cunqueiros em 2018 e dedicou-se à plantação de oliveiras e outras árvores de fruto até que, o desanimo causado pelo último grande incêndio de 2020, o voltou a afastar da floresta. Mas, Eduardo Brejo continua a viver ali, junto ao rio, mesmo “à porta” de um dos acessos mais bonitos às quelhas antigas. Resistente, é com um sorriso no rosto que diz “Cresci por aqui. A gente conhece estas quelhas todas, estas pessoas todas e é aqui que a gente se sente bem.”. 

José Dias

Sobral Fernando

Foi em plena apanha da azeitona que conhecemos o José Dias de Sobral Fernando. A custo, porque ainda havia muita azeitona para apanhar, José fez uma pausa, provando logo ali a sua amabilidade. Sentados à sombra de uma oliveira, junto ao rio, começou por contar uma história em que participara aquela mesma Oliveira. Daí em diante desfiou memórias sobre a aldeia na sua infância, o rio, a barca, a barragem que não foi feita, a sua ida para Lisboa e muito mais. Mesmo quando envolviam grandes desavenças e desgraças, havia algo na maneira como José contava as histórias que dava vontade de ouvir mais e mais.

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O rio, quer como protagonista ou figurante, participava em quase todas as aventuras. Foi fácil viajar no tempo com José Dias até aos tempos mais duros, em que também ele se juntou aos “ratinhos” rumo ao Alentejo para ceifar os campos. Andámos com ele na barca e ouvimos os vizinhos da aldeia da outra margem a pedir aos do Sobral para tratarem do seu gado, enquanto o rio estivesse alto. 

E foi já no fim, a regressar ao olival e com uma barrigada de histórias deliciosas, que o José Dias nos brindou com a história que não poderíamos esquecer. A voz vibrava e os olhos crepitavam, num ápice estávamos envolvidos pela noite e de volta à sua infância. Perto do rio, pequenas luzes que inexplicavelmente saltitavam nas Conheiras e subiam os montes, eram os Medos. 

Contou-nos a história de uma menina que estava junto ao rio e que tentava agarrar uma dessas luzes, para horror da mãe. O pai na outra margem gritou-lhe para não tocar nas luzes, que elas não fariam mal e assim foi, as luzes subiram a serra, até as perderem de vista. Os Medos povoam as memórias dos habitantes mais velhos da aldeia. O próprio José também tem uma história dos Medos quando, ainda gaiato, ia à noite a caminho do Moinho com o seu pai. 

Os mais sépticos certamente procurarão justificar com factos concretos, como a localização isolada do rio na fundura do vale, em que o som da água, do vento ou até de bichos podia ser sugestivo para as imaginações mais férteis. Haverá também quem diga que não havendo luz nem televisão as pessoas se dedicavam a pregar partidas umas às outras. 

Mas o que é certo é que encarando o olhar resoluto do senhor José Dias as dúvidas desaparecem: “Você não acredita nos medos!? Ah! Mas eu vi!”. 

Apresentação dos projectos de Arte na Paiasagem e de desenvolvimento Territorial da equipa MAG . Marques de Aguiar, Arquitectura e Urbanismo